Carta a Zerka

Carta a Zerka

Possuo em mim o hábito curioso de me comunicar com os mortos, não os espíritos, mas os mortos: aqueles que se foram e deixaram legados, mitos, dons e abordagens.

Minha última carta foi para Jacob Levy Moreno, o criador do Psicodrama. Estava eu colérica e devastada, e escrever para ele me acalentou. Incrivelmente, fui questionada sobre a escolha de ter procurado colo justamente em um homem descrito por muitos que o conheceram como alguém megalomaníaco e distante. Ainda assim, pensar nele como um pai me acalmou. Ele criou o Psicodrama, quem melhor do que ele para me ajudar a perguntar o que fizeram com o Psicodrama?

Moreno me acolheu. Mas agora preciso ser convocada.

Preciso de uma alma que coloque fogo nas minhas lamentações, que dê voz aos meus questionamentos e força ao meu movimento. Para isso, escolho você, querida Zerka Moreno, pois sem você o Psicodrama talvez não tivesse encontrado linguagem suficiente para permanecer vivo no mundo acadêmico. Foi você quem ajudou a sustentá-lo como método, como escrita e como possibilidade de transmissão, sem permitir que perdesse sua alma relacional.

O cenário desolador, ao menos o brasileiro, em que os psicólogos hoje se encontram me atravessa profundamente. Criou-se uma guerra imaginária em que abordagens disputam legitimidade como se disputassem território. Ouve-se constantemente falar em “padrão-ouro”, Zerka, e o próprio nome já anuncia o problema: a padronização passou a ocupar o lugar do encontro.

O medo do desconhecido, a ânsia em nomear e rotular, e a necessidade crescente de enquadrar o sofrimento humano em protocolos previsíveis fizeram com que até mesmo colegas da saúde mental passassem a tratar abordagens existencialistas como se fossem desvios metodológicos, e não caminhos legítimos de compreensão do humano.

E então me pergunto: em que momento a espontaneidade passou a precisar de autorização metodológica para existir?

Sinto-me exausta e em um labirinto. Exausta de precisar justificar continuamente o valor da abordagem que escolhi sustentar, e em um labirinto porque, cada vez que vejo pesquisadores ou comunicadores tentando estabelecer pontes entre perspectivas distintas da psicologia, a arrogância reaparece como resposta e somos “convidados” a nos calar em nome de uma ciência que esqueceu o encontro.

Não é apenas o cansaço de defender uma abordagem.

É o cansaço de defender uma forma de ver o humano.

Uma forma de sustentar que o encontro cura.

Que o vínculo transforma.

Que a cena revela aquilo que o protocolo não alcança.

Quando escrevi a carta para Moreno, muitos me chamaram de corajosa. Eu, quando olho para a minha trajetória, inclusive dentro do próprio Psicodrama, reconheço-me mais como uma rebelde teimosa. Teimo em acreditar na comunicação, no discernimento e no respeito entre abordagens. Teimo em acreditar que ainda é possível dialogar sem precisar hierarquizar existências clínicas.

Mas também sou rebelde.

Já precisei sustentar meu lugar diante de colegas que tentaram retirar pacientes de mim sob o argumento de que o Psicodrama não seria adequado para determinados casos, enquanto o próprio paciente afirmava a efetividade do processo terapêutico vivido. Não questionavam o processo. Questionavam o método antes mesmo de conhecer a história. Como se o sofrimento humano pudesse ser organizado em prateleiras metodológicas.

Por isso te escrevo, Zerka: como se protege a espontaneidade em uma época que deseja apenas repetir?

Talvez seja essa a pergunta que mais me move hoje.

Porque sinto que não estamos apenas defendendo uma abordagem. Estamos defendendo uma forma de existir dentro da psicologia. Tenho visto colegas desistirem do Psicodrama antes mesmo de experimentarem sua potência, não por falta de encontro, mas por medo de não serem reconhecidos como científicos.

E me pergunto se você também precisou sustentar esse lugar de resistência quando ajudou a transformar o Psicodrama em escrita, em método e em linguagem possível para o mundo acadêmico, sem permitir que ele se tornasse apenas técnica, nem perdesse sua vocação para o encontro.

Talvez eu não esteja te escrevendo apenas para pedir respostas.

Talvez eu esteja te escrevendo para lembrar a mim mesma que o Psicodrama continua vivo sempre que alguém insiste em sustentar a espontaneidade, o vínculo e o encontro como caminhos legítimos de cuidado.

Psicóloga Clínica Brenda Emilly

CRP 04\72068