O MITO DAS HISTÓRIAS SEM SENTIDO

Acredito que toda boa história mereça um bom título.

Toda grande história fica marcada na nossa mente e nos faz viajar e viver de um modo totalmente diferente do que conhecemos. Seja essa história um filme, um livro ou a vivência de alguém que deixa seu legado para o mundo.

Quando somos crianças, as histórias que as nossas mães nos contam antes de dormir nos fazem viajar. Nelas, podemos ser um bravo guerreiro que luta para salvar a mocinha de um dragão, ter um dinossauro como bichinho de estimação, viver grandes aventuras montado em um tapete voador ou escalar centenas de metros até o céu para conhecer um gigante e uma galinha que põe ovos de ouro.

Somos convocados à espontaneidade para poder brincar de ser criança.

Com o tempo, vamos imaginando que tudo não passa de sonho e imaginação, e, à medida que as regras de tempo e espaço vão mudando, a espontaneidade vira subversão, pois onde já se viu fugir da moral e dos bons costumes?

Pessoas, antes só pessoas, agora são rótulos.

“Não brinque com isso porque é coisa de menina.”

“Não se vista desse jeito porque é coisa de homem.”

“Onde já se viu você ter vontades?”

“Isso é falta de Deus. Vá rezar mais.”

“Homem não chora. Isso é coisa de mulherzinha.”

“Mulher nasceu pra ser pura.”

“Tá cansada de quê se você não fez nada além de cuidar da casa?”

Todas essas falas já passaram por mim de algum jeito. Seja enquanto mulher ou enquanto psicóloga no consultório. E, particularmente, me machucam. Se tornam rótulos tão bem prensados nas pessoas que podem ser descritos nada mais, nada menos, como uma tatuagem na alma: “se o mundo diz que não posso ser eu, então é melhor me matar”. Não no sentido de finalizar a vida, mas de sufocar a minha essência. Sufocar quem sou para pertencer a esse mundo que me diz o tempo todo que não posso criar nada que já não esteja pronto.

Não posso fugir.

Não posso EXISTIR.

Não posso amar...

Dentro do consultório, muitos pacientes me questionam sobre o tipo de abordagem que uso nos atendimentos, e muitos se assustam quando conto que sou psicodramatista. Muitos acham que é só teatro e que não vai ajudar a resolver nenhum de seus problemas. Muitos fogem achando que uma ou outra abordagem específica vai ajudar mais do que ficar fazendo “teatrinho” com a psicóloga.

Gostaria de dizer que, com o tempo, convenço todos de que isso é só um estigma colocado para fazer as pessoas acreditarem que existe uma abordagem melhor que a outra..., mas, assim como as frases duras que trouxe acima, essa “tatuagem interna”, marcada por quem deveria nos ensinar a ser psicólogos, não se desfaz com lazer, nem arrancando a pele.

Sempre questionei, enquanto pessoa, o porquê de não podermos existir como somos. Enquanto estudante, o porquê de termos que aprender as coisas de um jeito só e, enquanto aluna de psicologia, por que não temos mais recursos abertos para outras abordagens desconhecidas da psicologia.

Graças às divindades superiores, eu pude conhecer o psicodrama, que me deu a resposta para todas essas perguntas. A verdade é que ninguém quer ter o trabalho de entender o porquê de as coisas serem como são. É mais fácil aceitar. Se torna mais fácil de CONTROLAR.

“Deus nos livre de pessoas que pensam com a própria cabeça. Que se conhecem de verdade. Como vamos manter o CONTROLE disso?!”

Talvez eu esteja sendo radical nas minhas palavras. Mas enxergo isso como um desabafo. Desabafo esse de uma pessoa que encontrou no psicodrama um colo para existir de verdade, sem pensar que sou culpada por ser e pensar diferente de todos à minha volta. E que tenta quebrar todos os dias, junto com meus pacientes, as conservas que lhes foram impostas pelo mundo.

Isso que escrevo agora é um grito de socorro, de raiva e frustração por não entender como podemos continuar sendo tão ignorantes ao ponto de nos acharmos superiores aos outros, seja pela classe social, raça, gênero, sexualidade ou abordagem. É o grito de uma mulher que luta todos os dias para existir sem ser questionada. De uma mãe que luta para criar um homem decente, que nos respeite independentemente de quem sejamos. De uma profissional que chora ao ver seus pacientes lutando para levantar da cama porque as pessoas acham que fome é só no estômago, e não na alma.

É o grito de quem quer CRIAR e SER OUVIDA.