Refletir sobre o preço da psicoterapia é abrir um campo de análiseque extrapola a dimensão econômica e adentra, necessariamente, os domínios da
ética, da política pública, da responsabilidade social e da própria concepção
de cuidado em saúde mental. No campo do Psicodrama, essa reflexão ganha
contornos ainda mais complexos, uma vez que o sofrimento psíquico é
compreendido como fenômeno relacional, histórico e socialmente situado.
Jacob Levy Moreno, criador do Psicodrama, da Sociometria e daPsicoterapia de Grupo, propôs uma compreensão do ser humano como sujeito em
permanente interação com seus vínculos, seus papéis e o campo social no qual
está inserido. A clínica psicodramática, portanto, não pode ser pensada de
forma dissociada da realidade sociocultural e econômica em que se desenvolve.
Nesse sentido, discutir preço e valor da psicoterapia implica reconhecer que o
cuidado clínico se dá sempre em uma cena ampliada, atravessada por
desigualdades, políticas institucionais e condições materiais de existência.
Uma distinção fundamental nesse debate é entre preço e valor. Opreço refere-se ao custo financeiro atribuído ao serviço prestado, inserido em
uma lógica de mercado e regido por condições econômicas objetivas. O valor, por
sua vez, diz respeito ao impacto subjetivo, relacional e social do processo
psicoterapêutico, incluindo a ampliação da espontaneidade, a reorganização de
papéis, o fortalecimento da autonomia e a possibilidade de transformação das
relações do sujeito consigo mesmo, com os outros e com o mundo.
No contexto brasileiro, marcado por profundas desigualdades sociais,essa distinção torna-se ainda mais relevante. Grande parte da população não
dispõe de recursos financeiros suficientes para sustentar um processo
psicoterapêutico semanal nos valores de referência indicados por entidades
profissionais. Ignorar esse dado significa desconsiderar as condições concretas
em que o sofrimento psíquico se produz e se mantém. Por outro lado, a adoção
indiscriminada de atendimentos por valores muito reduzidos, sem critérios
institucionais claros, contribui para a precarização do trabalho do psicólogo,
para a banalização da prática clínica e para a construção de um imaginário
social que desvaloriza a psicoterapia enquanto profissão e campo de saber.
É nesse ponto que se faz necessária uma leitura mais complexa, quearticule ética, clínica e responsabilidade social. Inspirados no pensamento de
Moreno, propomos compreender essa discussão a partir de uma tricotomia
psicodramática, composta pela articulação entre Sociometria, Psicodrama e
Psicoterapia de Grupo. Essa tríade permite uma leitura ampliada do cuidado,
integrando o sujeito, seus vínculos e o campo social.
A Sociometria oferece instrumentos para a compreensão das redesrelacionais que constituem o indivíduo, permitindo analisar escolhas,
rejeições, vínculos significativos e contextos de pertencimento. O conceito de
átomo social, central na teoria moreniana, evidencia que o sofrimento psíquico
não se restringe ao indivíduo isolado, mas se organiza nas relações que ele
estabelece ao longo da vida.
O Psicodrama, enquanto método de ação, possibilita a dramatizaçãodas cenas internas e externas do sujeito, favorecendo a experimentação de novos
papéis e a ampliação da espontaneidade e da criatividade. Já a Psicoterapia de
Grupo amplia o campo terapêutico, reconhecendo o grupo como espaço privilegiado
de trocas, reconhecimento e reconstrução de vínculos, além de constituir
importante estratégia de democratização do acesso ao cuidado em saúde mental.
A experiência da Casa das Cenas – Escola de Formação em Psicodrama eClínica de Psicologia – exemplifica de forma concreta como essa articulação
pode ser sustentada institucionalmente. Com mais de trinta anos de atuação na
cidade de Uberlândia, a Casa das Cenas construiu um modelo de clínica que
integra formação profissional, atendimento psicológico e compromisso social,
mantendo desde 1998 o Projeto Clínica Social.
Essa trajetória institucional encontra-se registrada na obraPsicodrama em Ação: histórias e técnicas para transformar pessoas e
instituições, publicada em 2025 pela Editora Olímpia, com organização de Wesley
Miranda Marques. No primeiro capítulo, Cacilda Borges, fundadora da Casa das
Cenas, apresenta o processo histórico de criação da instituição, explicitando
os princípios éticos e psicodramáticos que orientaram sua constituição. No
segundo capítulo, Silvana Tavares, psicóloga, psicodramatista e supervisora do
Projeto Clínica Social há mais de vinte anos, relata a experiência acumulada à
frente do projeto, apresentando dados de atendimento e reflexões sobre sua
contribuição para a formação de profissionais e para a comunidade. O terceiro
capítulo aborda os desdobramentos institucionais da Casa das Cenas, incluindo a
criação de outras iniciativas, como a Clínica Trilhas, hoje referência nacional
em Acompanhamento Terapêutico.
Na prática da Casa das Cenas, todos os sujeitos que buscamatendimento são acolhidos. Contudo, a inserção no Projeto Clínica Social ocorre
a partir de critérios claros e de uma avaliação socioeconômica cuidadosa, que
considera o indivíduo em seu contexto familiar e social. Atualmente, o projeto
atende dezenas de pacientes, acompanhados por profissionais qualificados e
supervisionados, compreendendo que, em muitos casos, o atendimento social é
temporário e deve favorecer o desenvolvimento da autonomia e da reorganização
dos papéis sociais do sujeito.
Dessa forma, o valor social da psicoterapia não se configura como umrótulo fixo ou como uma obrigação moral indiscriminada, mas como uma prática
ética situada, sustentada por critérios, responsabilidade institucional e
compromisso com a qualidade do cuidado. A clínica psicodramática, ao integrar
indivíduo, grupo e sociedade, oferece importantes contribuições para a
construção de modelos de atendimento que articulem acesso, sustentabilidade
profissional e transformação social.
Cuidar da clínica é, portanto, cuidar também do lugar que apsicologia ocupa na sociedade, reconhecendo seu valor técnico, ético e humano.
REFERÊNCIAS
BORGES, Cacilda. A criação da Casa das Cenas. In: MARQUES, WesleyMiranda (org.). Psicodrama em Ação: histórias e técnicas para transformar
pessoas e instituições. Uberlândia: Editora Olímpia, 2025.
FEBRAP – Federação Brasileira de Psicodrama. Disponível em:https://www.febrap.org.br. Acesso em: jan. 2026.
MARQUES, Wesley Miranda (org.). Psicodrama em Ação: histórias etécnicas para transformar pessoas e instituições. Uberlândia: Editora Olímpia,
2025.
MORENO, Jacob Levy. Psicodrama. 3 v. Beacon, NY: Beacon House,1946–1959.
REVISTA BRASILEIRA DE PSICODRAMA. Disponível em:https://revbraspsicodrama.org.br. Acesso em: jan. 2026.
TAVARES, Silvana. A clínica social como espaço de formação ecuidado. In: MARQUES, Wesley Miranda (org.). Psicodrama em Ação: histórias e
técnicas para transformar pessoas e instituições. Uberlândia: Editora Olímpia,
2025.
CASA DAS CENAS – Escola de Psicodrama e Clínica de Psicologia.Disponível em: https://www.casadascenas.com.br. Acesso em: jan. 2026.

