Ninguém te ensionou a descansar sem culpa e isso adoece

As férias chegam, o corpo até diminui o ritmo, a agenda esvazia um pouco, o despertador silencia. Mas a mente continua em alerta.

Ela segue fazendo listas invisíveis, revisando pendências, criando metas, cobrando presença, desempenho e aproveitamento. Como se descansar precisasse ser produtivo. Como se a pausa tivesse que render algo além de fôlego.

A sensação de que deveria estar fazendo mais não some só porque o calendário mudou. Porque o problema nunca foi apenas falta de tempo, foi a forma como aprendemos a nos relacionar com ele.

Ninguém nos ensinou a descansar sem culpa. Fomos ensinadas a aguentar, a render, a provar valor pelo cansaço. Por isso, quando a pausa chega, ela vem carregada de cobrança. Descansamos com a cabeça cheia, com o coração inquieto, com a sensação constante de que estamos falhando em algum lugar. E quando isso acontece, o descanso deixa de cumprir sua função. O corpo até para, mas por dentro tudo continua em estado de alerta.

O fim de um ano e o começo de outro costumam escancarar isso. O cansaço acumulado que foi sendo empurrado, a dificuldade real de desligar, a pressa para voltar melhor, mais organizada, mais focada, mais produtiva. Como se o descanso fosse apenas um intervalo para acelerar de novo.

Talvez o verdadeiro recomeço não esteja em fazer planos melhores. Talvez esteja em aprender algo que nunca nos ensinaram: descansar não é atraso.

Descansar é cuidado. É regulação. É permitir que corpo e mente saiam do modo de sobrevivência. Não para desistir da vida, mas para conseguir vivê-la com mais presença, menos exaustão e menos culpa. Porque nenhuma mente sobrecarregada floresce, ela apenas resiste.

E resistir o tempo todo não é força. É sinal de que algo precisa, finalmente, parar.