O meu lugar de fala - Ailton Rodrigues


Diante de algumas situações que necessitam uma análisecrítica e apurada, sempre me recordo de uma fala do professor de direito e
também ex-reitor da UNB, José Geraldo de Souza Júnior, na Câmara dos Deputados,
em 14/06/23: "(...) Eu não tenho como discutir com a deputada porque a sua
visão de mundo, a sua percepção como cosmovisão, só lhe permite enxergar o que
a senhora já tem escrito na sua cognição. Então a senhora vai ver não o que
existe, mas o que a senhora recorta da realidade. A realidade é recortada por
um processo cognitivo de historicização. Então eu não posso discutir um tema
que contrapõe visão de mundo, concepção de mundo. Eu vejo outra coisa. (...)
São referenciais que significam que o real não é aquilo que existe, mas é a
representação que a gente faz, de como a gente vê. Paciência né! Por isso que
há pluralidade de concepções de mundo."

Essa é uma fala que se tornou viral no universo pensante.Sempre me questiono se a minha visão de mundo ou especificamente sobre
determinado assunto em pauta é ampla e contempla o máximo da parte de um todo
ou é apenas um recorte daquilo que eu tenho como experiência e ciência, ou
ainda como diz o professor José Geraldo, será que tenho recorte cognitivo para
tal? O auto questionamento me faz refletir e, no mínimo, buscar conhecimento
sobre o que de fato ainda não conheço com vastidão. Recuso-me a repetir falas
sobre determinados assuntos mesmo que essas falas tenham sido proferidas em
universo acadêmico por quem algum dia ocupou o papel de levar conhecimento e
informação. Não julgo a ciência que não conheço, mas me recuso a aceitar calado
quando alguém se atreve a falar de forma enviesada sobre alguma realidade
recortada por um processo cognitivo, que em suma, demonstra apenas não ter
conhecimento de causa, tampouco norral. Portanto, se torna mera falácia.

O cerne do meu incômodo hoje vai além de uma necessidade dedefender um dos meus lugares de fala e olha que nem é sobre o Corinthians ou sobre
a política que traz em suas pautas a luta justa e democrática pelas minorias e
a igualdade de direito para todos. Falo hoje do prisma da psicologia enquanto
ciência. Durante mais de 12 anos em cadeiras acadêmicas, sendo os últimos 4,5
anos na ciência que estuda a mente, sempre presenciei e participei de debates
que incluíam pontos de divergência entre correntes de pensamentos diferentes, como
estratégia, método, eficácia, exatidão e verdade. Entendi, desde o primeiro dia
de aula, que tudo o que nos foi apresentado enquanto abordagens eram de fato
respaldadas cientificamente. Ponto.

Muito mais do que o método e a técnica em si, existe algo que está além. E, de
tão além, também está para poucos. Yung disse “ao tocar uma alma humana seja
apenas uma alma humana.” Isso me basta. Posso dizer que literalmente me
fascinei por cada uma das disciplinas que me foram apresentadas, porque via no
brilho dos olhos de quem dirigia a cena, a convicção expressada em tom de
satisfação e também de amor ao que se faz. Profissionais de abordagens
diferentes trazendo o melhor daquilo que escolheram para trilhar. Claro, no
meio do caminho também encontrei quem só cumpria tabela... Faz parte.

Minhas melhores lembranças são nomes. As piores também. Maseu valido aquilo que considero positivo para a minha construção profissional.
Nomes que transcenderam seus papeis acadêmicos e trouxeram sentimentos
verdadeiros, exemplos e coragem. Ainda no universo acadêmico da psicologia
encantei-me pela abordagem humanista e fenomenológica existencial. “Nesse mundo
estamos uns pelos outros”, é mais que uma frase, é uma atitude, uma ação que
dispensa palavras. E isso me fez enveredar por esse caminho, dentro e fora da
universidade.

Na academia, cada um defendia o seu lugar sem a necessidadede diminuir o lugar do outro. Fora do universo acadêmico impera a lei da selva:
não tem lei. E isso empobrece o movimento como um todo. A ética sobre o espaço
do outro inexiste em grande parte dos profissionais. E, novamente, quem necessita
diminuir a escolha do outro, ou a abordagem que o outro escolheu, fala mais de
si e sua vida profissional-social do que daquilo que desconhece.

Bom, há exatamente dois anos da conclusão do curso minhavida se cruzou com o Psicodrama. Foi um encontro de dois. Um encontro de
lugares. Um sentimento de retorno pra casa... e por incrível que pareça esse
lugar se chama Casa das Cenas – Clínica e Escola de Psicodrama. Cheguei por um
motivo e permaneci por infinitas razões. Participei de eventos como convidado e
logo me inscrevi na pós em Psicodrama. O que me cativou? O humano. Wesley
Miranda me atendeu a primeira vez como psicólogo. O acolhimento em si foi além,
me fez sentir-se à vontade, conectado e com o desejo de querer conhecer melhor
esse lugar. A gente se apaixona, muitas vezes não pela “matéria em si”, mas
pela forma com que o outro expõe sobre.

Fui ficando, entendendo, sentindo e querendo conhecer mais emais. Outros nomes foram se tornando familiares: Cacilda e Jacqueline, por
exemplo. Já pensava, reconhecia e sentia o psicodrama enquanto movimento vivo. Como
abordagem humanista ele me deu muito mais que possibilidades, apresentou
lugares, aguçou a espontaneidade, acirrou a criatividade e me instigou à
travessia. Passei a compreender na prática que ele vai além de uma abordagem em
si, é também um suporte enquanto ferramenta para outras abordagens e outras
ciências e um modo de viver.

Hoje, após dois anos de pós graduação, estágio na clínicasocial da Casa das Cenas e com atendimentos clínicos me abstenho de explicar
para quem enxerga o psicodrama de forma enviesada, ou como diria novamente o
professor José Geraldo “eu não tenho como discutir com você porque a suavisão de mundo, a sua percepção como cosmovisão, só lhe permite enxergar o que
você já tem escrito na sua cognição.”

O que de fato posso relatar é a partir da minha experiênciae do retorno dado por quem esteve comigo no setting terapêutico. O resultado de
um trabalho construído com dedicação, responsabilidade, ética, respeito e amor
ecoa feito música. Há Profissionais e profissionais em todas as abordagens e
cada um é responsável por seus atos e colhe os frutos do seu empenho e
dedicação. Estranha-me muito quando vejo e ouço profissionais buscando o
mercado atacando e invalidando outras abordagens. Entendo que na ausência de
capacidade de conquistar espaço a única forma é falando do espaço do outro.

A luta pela detenção da verdade, pelo podium do saber, pelaabordagem mais eficaz é tão antiga quanto a história da humanidade. “Afinal,
quem é o detentor da verdade?” ou ainda “qual abordagem é a melhor?” É uma luta
que está longe de um fim amistoso. Isso não me amedronta, mas incomoda. Fato é
que estou aqui, unindo forças para não deixar que pessoas sem “visão demundo”, ou melhor, “com uma visão recortada e enviesada” deturpem oespaço que não conhecem. A multiplicidade de correntes de pensamentos e ações é
o que faz o universo repleto de opções. E as pessoas, enquanto profissionais, atuam
dentro da perspectiva que faz sentido em sua vida pessoal, social e
profissional, e suas ações promovem resultados significativos na vida de outras
pessoas. Por outro lado, enquanto clientes, elas permanecem no lugar em que se sentem
acolhidas, reconhecidas e respeitadas, e isso diz respeito à conexão humana
pautada na ética profissional.

Eu venho compreendendo o meu papel que se desdobra em outrosvários. Reconheço-me como um ser político, social, familiar e profissional que
atua de forma específica e integrada diante dos papeis assumidos. Não tem como
dissociar a atuação clínica das lutas sociais. Aquietar-se frente as injustiças
não vejo como algo condizente com o papel de psicólogo e psicodramatista. Isso
não é optar por bandeiras, mas lutar por democracia e justiça.

O psicodrama é uma abordagem que abrange o ser humano comoum todo. Suas relações importam, tanto quanto seus sentimentos, traumas e as
demandas que ora dificultam o seu ser, ora o retira de cena e lhe rouba o
protagonismo.

Ainda sobre a minha trajetória na clínica, em que opsicodrama tem forte presença, subscrevo o seguinte pensamento: “Quem precisa
se apresentar e se apresenta já não é, mas quem é não se apresenta.” (Renato
Freitas)